Descobri também que sou impaciente. E que gosto de livros que tenham algo a dizer, que te mostrem conhecimento, principalmente coisas práticas. Adoro os livros sobre comunicação e jornalismo, cinema e artes. Amo livros-reportagem e biografias. Abomino auto-ajuda. Claro que não vou dizer que não adoro aqueles livros que, ao fim da última linha, lhe ensinam a viver melhor. Mas não explicando por A+B, numa fórmula de dieta, o que você deve fazer. Mas sim fazendo refletir, mostrando que existem caminhos mais interessantes, mais temperados, mais refrescantes. E mais sábios também. Tudo isso sem que você perceba, por estar absolutamente mergulhado no enredo.
Terminei, há duas semanas, um dos livros mais gostosos que já li. É a autobiografia do bailarino chinês Li Cunxin. Se chama "Adeus China. O último bailarino de Mao". O livro é da editora Fundamento e custa, em média, 40 reais. Há muito tempo não caía em minhas mãos um livro que combinasse tanto com o meu estilo de leitura.Li Cunxin narra a sua história de um jeito simples, bonito e muito verdadeiro. As imagens quem vêm à imaginação a cada linha são de uma China tradicional, de uma cultura encantadora mas muito sofrida e pobre sob os olhos severos de Mao Tse Tung. Cunxin é o sexto de sete filhos de uma família camponesa típica do nordeste da China dos anos 60/70. A devoção ao comunismo de Mao permeia toda a educação das crianças e mostra, na prática, como o sistema prevaleceu naqueles anos.
A vida árdua nos campos muda de uma hora para a outra quando Li, aos 11, é convidado a fazer parte da Acadamia de Dança de Madame Mao, esposa do imperador, em Pequim. Na Academia, Cunxin fez amigos, tinha comida certa, chuveiros e uma oportunidade de viver melhor. Tudo isso, para a família do aspirante a bailarino, era uma benção. Para ele, era assustador. A todo momento ele se lembra de sua mãe, do colo seguro de sua niang. Como leitora, sofri com o pequeno coração apertado do chinesinho (ou seria chinezinho?). Com a ajuda dos colegas e a influência de alguns professores, Cunxin passa a se dedicar à dança e ter confiança nos passos. A determinação do adolescente é algo memorável. Cunxin define metas e as alcança.
Até que chega o momento em que o rapaz recebe um convite para dançar nos EUA. Com a morte de Mao e as portas do comunismo estreitamente já abertas, a visita é possível e Cunxin se depara com um mundo absolutamente diferente. E encantador. Dei gargalhadas sozinha lendo os espantos do garoto com a cultura do Ocidente. Ao mesmo tempo em que a minha garganta apertou quando ele percebia a pobreza em que sua família viva. A decepção com Mao e tudo aquilo que havia sido ensinado e tatuado na sua alma não passava de lavagem cerebral? Constantemente, Cunxin comparava os gastos que as pessoas faziam em roupas, restaurantes e presentes com o mísero salário de seu pai, do dia. Triste imaginar que um cafezinho no aeroporto de Houston custava o salário de quase um mês de um camponês na China.
Não vou resenhar nem contar o restante do livro. Só deixar aqui a marquinha de que vale a pena se aventurar por esse mundo tão diferente e tão bonito. Ao mesmo tempo tão pobre a angustiante. Linda história. Lindo livro. Bestseller dramalhão ou não, eu adorei!
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E a história, claro, está cotada para virar filme. Best seller absoluto na Austrália, onde Cunxin vive hoje com a família (leia o livro porque eu não vou contar como ele foi parar lá), a autobiografia já virou roteiro nas mãos de Jan Sardi e vai receber a assinatura do diretor Bruce Beresford. Pode saber que vem choro pela frente. Jan Sardi é responsável por todas as lágrimas femininas derramadas no lindo The Notebook e em Shine. Pensa! Não vejo a hora de abrir o berreiro em frente à telona.

Um comentário:
eu AMO 'the notebook'.. e agora morri de vontade de ler esse livro ;)
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